sexta-feira, dezembro 14

Psssssssss, faz silêncio que ela está dormindo.

segunda-feira, novembro 19

Horas do Ângelus.

É nas horas dos Ângelus, nas horas
Do claro-escuro emocional aéreo,
Que surges, Flor do Sol, entre as sonoras
Ondulações e brumas do Mistério.

Surges, talvez, do fundo de umas eras
De doloroso e turvo labirinto,
Quando se esgota o vinho das Quimeras
E os venenos românticos do absinto.

Cruz e Sousa, fragmento do poema Ângelus.

segunda-feira, novembro 5

Ismália


Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu uma lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

Alphonsus de Guimaraens

segunda-feira, outubro 29

Pequenas folhas ao ar.

E que tem estar melhor? Que rasgue todas as folhas para que estejam melhores que sou. Não importe tantos papéis, afinal o que? Importa se os pedaços de mim forem apenas isso?

quarta-feira, outubro 24

...Circumstance will decide...

segunda-feira, outubro 22

Bons momentos, daqueles que fazem cócegas nas bochechas, frio no estômago e uma leveza nos pés.

quarta-feira, setembro 26

O primeiro sopro primaveril.


E vem chegando uma nova estação, os primeiros calores da primavera parecem tão antigos quanto um primeiro sopro. O vento morno e tépido traz as primeiras doçuras do ar, e esse primeiro calor ainda fresco tem o peso suave da espera mais delicada: DESABROCHAR.

Início: 23/09/2007 - 06:51

sexta-feira, setembro 21

Avant trouver la petite boîte rouge (Première Partie)


"Também é verdade o vermelho eufórico no amanhecer e entardecer. No indefinível tempo da morte. É verdade então a cor do fruto proibido e dos disfarces que as ciscunstâncias decidirão."

O vidro ficou ligeiramente embaçado com sua respiração sôfrega, colocou a mão na janela bem perto do quente de seu hálito, como se dessa forma ela pudesse despertar. Por quanto tempo as coisas poderiam permanecer daquele modo? Para Maria não importa, já faz um tempo que não é tempo e faz tanto tempo que Maria perdeu a noção do calendário gregoriano, perdeu até a noção do próprio tempo. O dia estava amanhecendo e a ausência de movimento na rua lhe dizia que era final de semana, talvez domingo, levantando a cabeça ela deu uma última olhada pela janela, sentou-se na cadeira velha de balanço e deixou o dia escorrer por suas mãos, da mesma forma que fazia sempre, olhando em volta, sem conseguir enxergar a mulher decrépita que sentava todos os dias na cadeira velha de balanço. Ela sabia sentir, mesmo sem saber exatamente o que sentia. Sua casa estava empoeirada, cheirando a mofo e cinzeiro, e ela não sentia vontade alguma de colocar as coisas em ordem, era sua vida a própria desordem. A mesa cheia de restos de comida e papéis velhos amassados, o vaso com a planta seca, jornais espalhados pelo chão, fotos de pessoas mortas, roupas sujas e uma caixa vermelha. Engraçado, eu não me lembrava dessa caixa, se bem que, ela deve estar neste lugar a bastante tempo, ou não deve estar? Ela tinha mania de rezar, mas não sabia nenhuma oração, pedia em silêncio que o dia levasse sua dor embora numa manhã nublada e ao despertar ela pudesse se ver sentada na cadeira de balanço segurando um pedaço qualquer de papel e alguma anotação feita na noite anterior com sua letra tortuosa e dessa forma essa sua tortura diária pudesse ter um fim, amém. Mas o dia sempre voltava com sua dor, então ela já não sabia se era ontem ou amanhã, ela apenas sabia que esperaria, sempre, o dia levar embora essa dor que lhe apertava o peito e doía o estômago. Quando uma fresta de sol bateu no cinzeiro, que estava perto da porta, ela pensou que em pouco tempo anoiteceria, pegou um casaco grosso, o maço de cigarros, fósforos e saiu sem trancar as portas. Andando ela tentava recordar o seu passado, entre supostas lembranças e imaginação Maria não conseguia ao certo distinguir o que era parte de sua vida e o que era fruto de sua solidão. Acendeu um cigarro e sua pernas adormeceram, então ela fechou os olhos e jogou o seu corpo para trás e foi caindo, caindo, caindo, caindo num abismo profundo.

terça-feira, setembro 18

La petite boîte bleue (Première Partie)


"É verdade o azul nas coisas dormentes e tristes da vida, nas coisas ausentes, nas coisas perdidas. Também é verdade a cor que o tempo insinua, o azul no espaço infinito do pranto, no eco do grito no vulto de espanto."

Pilar esteve muito ocupada durante a semana, essa noite ela haveria de adormecer sentada numa poltrona lilás com o despertador no colo sem ligar o alarme, adormeceria de cansaço. Sonhou que lavava o rosto devagar, esfregando calmamente cada linha de expressão. Escovou mais uma vez os dentes. Penteou os cabelos fio por fio, num zelo tão indiferente como um processo ritualista do próprio corpo, que ela desconhecia e fazia com tanto prazer que por um momento pensou existir! Sua alma estava trêmula, ela não sabia porque se tocava com tanto amor nem tampouco por quanto tempo. Levantando os olhos pôde se olhar no espelho e levou um susto: o seu reflexo era de uma pessoa desconhecida. Como é que pode não se reconhecer do dia para a noite? E ela não sabia como responder. Acordou com uma sensação estranha, levantou para tomar uma água e foi andando às cegas até o banheiro. Quando chegou na porta não sabia o que queria fazer, então resolveu voltar pelo corredor até a poltrona lilás. No meio do caminho tropeçou em uma caixa enorme. Que diabos essa caixa está fazendo aqui? Ligou a luz no fim do corredor e olhando para aquele embrulho enorme em azul percebeu que não sabia o que era aquela caixa nem o que ela fazia jogada no meio do corredor atrapalhando a passagem para todos os cômodos. Tentou recordar cada passo seu durante a semana, mas Pilar havia feito tantas coisas e estava tão cansada que preferiu deitar em sua cama e finalmente dormir até o dia amanhecer. O despertador não tocou mas ela acordou pontualmente às 6 da manhã, estava mais cansada do que antes, com o corpo dolorido, levantou-se e foi em direção ao banheiro pensando em deitar novamente, dormir mais um pouco e gritar um foda-se bem alto. Esbarrou mais uma vez na caixa enorme com embrulho azul e soltou um berro tão estridente que sentiu o telhado cair sobre sua cabeça, sentou no chão completamente encolhida apertando os olhos, quando voltou a si o teto estava intacto, mas a caixa permanecia ali.

quarta-feira, setembro 12

Desatentar.

O sofá tem lugar para três, a casa pode hospedar várias pessoas. Na noite anterior Fernanda estava ansiosa e contente, Pedro chegaria logo após o coração dela palpitar rápido e forte. A cama tem lugar para dois, a casa é pequena e a tempos não recebe uma visita. Na noite anterior Pedro pensava no amanhã e se apressava para ver Fernanda. Enquanto ele andava lembrou que teria de voltar cedo, pois havia marcado de encontrar Lucas, tomar uma cerveja. Bruna havia terminado um namoro de 2 anos, ela disse que ele não lhe dava atenção, parecia até ter vergonha de sair com ela, Lucas dizia que não, era coisa da cabeça dela - "você fica muito tempo sozinha em casa, acaba pensando besteira" - durante o tempo de namoro, ela sequer conhecia os amigos de Lucas. Chegando na casa de Fernanda, apressado para entrar e falar que teria de ir embora mais cedo, Pedro sequer percebeu o quanto Fernanda estava bonita, ela recebeu ele com vários beijos, e ele sem perceber o quanto Fernanda estava bonita, sentou no sofá com lugar para três e ligou a televisão....

terça-feira, setembro 11

Orbite d'être.

Só havia sol, um brilho intenso que queimava a retina e ofuscava a verdadeira cor de seus olhos. E havia tanta luz que por alguns momentos ela pôde se sentir assim, meio celestial.

- Temos que conversar, Alice.
- Estou cansada! Será que podemos ter um momento de calar, do qual nenhum dos dois se sinta incomodado?
- Creio que podemos, mas temos que conversar.

Alice olhava como as pessoas moviam-se, observava a individualidade de cada corpo com suas pequenas minúcias. Ela tinha o poder de transformar um simples gesto num magnífico momento de ser.

- Engraçado como todos demoram tanto para perceber o que realmente importa.
- O que realmente importa?
- Não é somente o que gira em torno de seu umbigo.
- Então, qual é a verdadeira órbita de ser?

Underwater Love - Smoke City

Howard Schatz - Underwater Study.

This must be underwater love
The way I feel it slipping all over me
This must be underwater love
The way I feel it

O que que é esse amor d'água
Deve sentir muito parecido a esse amor

This is it
Underwater love
It is so deep
So beautifully liquid

Esse amor com paixão, ai
Esse amor com paixão, ai que coisa!

After the rain comes sun
After the sun comes rain again
After the rain comes sun
And after the sun comes rain again

This must be underwater love
The way I feel it slipping all over me
This must be underwater love
The way I feel it

O que que é esse amor d'água
Eu sei que eu não quero mais nada

Follow me now
To a place you only dreamt of
Before I came along

When I first saw you
I was deep in clear blue water
The sun was shining
Calling me to come and see you
I touched your soft skin
And you jumped in with your eyes closed
And a smile upon your face

Você vem, você vai
Você vem é cai
E vem aqui pra cá
Porque eu quero te beijar na sua boca
Que coisa louca
Vem aqui pra cá
Porque eu quero te beijar na sua boca
Ai que boca gostosa

After the rain comes sun
After the sun comes rain again

Cai cai e tudo tudo cai
Tudo cai pra lá e pra cá
Pra lá e pra cá
E vamos nadar
Vamos nadar e tudo tudo dá

This must be underwater love
The way I feel it slipping all over me
This must be underwater love
The way I feel it

Oh oh d'água Underwater
Oh underwater love
This underwater love
This underwater love
Underwater love

terça-feira, setembro 4

Pretérito IMperfeito do Indicativo.

Quando eu penso que está tudo bem, o demônio do meu passado vem me atormentar. Quando eu paro de lembrar de tudo que passou, tenho que fazer um enorme esforço para esquecer. Pra que sair debaixo da montanha que te enterrou?

"Cortar a ligação com o passado - disse ele vagarosamente, como se falasse consigo mesmo -, conseguir apagá-lo, é o mais vil de todos os cortes com a lei do cosmos. É ingratidão, e uma fuga às nossas dívidas. É um suicídio: com esse corte, a pessoa está a aniquilar-se a sí mesma. [...] Eu não cortarei, no momento em que atingi o que, na verdade, sou, as minhas raízes, transformando-me numa sombra, transitando para o nada."

in Novos Contos de Inverno - Karen Blixen

sábado, setembro 1

Labirinto.


Seus olhos serrados buscavam um certo conforto na direção dos pensamentos, diziam que ela não deveria ter medo e que tudo ficaria bem. A luz do sol batia em sua bochecha reluzindo o tom rosado de sua pele. Ela fez menção de falar, mas após abrir a boca para dizer algo, respirou fundo e abaixando a cabeça desistiu. As mãos permaneciam descansando sobre um corte, a calça deveria ter alguns anos de caminhada já que sua cor se mostrava envelhecida e alguns rasgões indicavam isso. Seus olhos perdidos permaneciam olhando na mesma direção, tão longe que se perderam...

quinta-feira, agosto 23

About one dream...

segunda-feira, agosto 6

Profundo. Pro fundo., (Reflexão)

Estou dizendo que minha cabeça de vez em quando quase tomba. Não sei ao certo como ela ainda pode ser sustentada, meu corpo parece ser mais forte do que eu. Um peso gigantesco quase me leva a nocaute e se eu cair vou direto pro chão, meu corpo vai para o chão, mas minha mente permanecerá caindo e caindo e caindo numa queda livre onde o profundo do meu ser chega em silêncio à um labirinto. Pro fundo do meu ser. Digo que minha cabeça já não sustenta mais o que sou, pareço pesar dentro de mim, e já não entendo mais como posso permanecer de pé. Perco-me dentro do que sou e me procuro fora de mim, aigo pelo labirinto tentando chegar em meu coração, que aida pulsa em meu calar. Estou em queda livre e já não sei mais quem eu sou. Vejo minha vida passar diante dos meus olhos e me cego pelo que sei que sou, pela única certeza do que se é ser. Caio em reflexão, no profundo do meu ser, pro fundo de mim. Caio...

segunda-feira, julho 23

Você já escutou uma voz que sai de dentro e fala ao pé do seu próprio ouvido?

Coisas.

Estive pensando em coisas. Essas coisas que de repente aparecem e somem. Pensei no que sumiu e no que apareceu. Volta e meia eu ando por aí, meio perdida de mim mesma. Me encontro na meia volta que dou, bem ali parada naquela esquina, sem saber ao certo se vou para a direita ou para a esquerda, não importa, nunca importou, no fim eu chego no começo e vou para a frente. Não gosto de voltar atrás, mas as vezes voltar atrás significa virar para a direita. Ou para a esquerda. Não importa. Ando sem destino, no começo eu pensava que andar significava encontrar alguma coisa. Nem sempre encontro. Não encontrar significa achar alguma coisa? Estive pensando também, nessas voltas. Paro e penso, não sei ao certo quanto tempo paro nem quanto tempo penso, sei que, volta e meia eu paro, volta e meia eu ando e fico assim, dando voltas em torno de mim mesma, sem querer voltar ou ir. Sem querer parar. Agora eu me encontro num lugar onde eu não imaginava estar, cheguei aqui sem saber aonde eu estava indo. Isso pode significar algo, digo, isso pode significar alguma coisa? Essas coisas podem significar algo? Esse algo pode significar alguma coisa? Não sei ao certo, o certo é que sei o que acontece, parece que nunca acontece nada, parece que nada de vez em quando vira um todo. Está me ouvindo? Me vejo sentada ali e aqui, me vejo lá e não sei ao certo aonde estou. De vez em quando, essas coisas, me dão um calafrio, alguma coisa me dá um calafrio, que coisa é essa? É calafrio? Não sei bem ao certo. Agora eu sei, ainda tenho que caminhar, ficar parada não resolve nada, daqui pra frente eu chego lá e bem ali eu sento. Vou saber que caminhar nem sempre me leva a algum lugar, nem sempre caminhar quer dizer que eu vá sair de algum lugar. Queria mesmo, era sair do chão.

quinta-feira, julho 19

O que você faz quando está envolto de muita felicidade?

Eu me escondo!

sexta-feira, julho 13

In the sky.

domingo, julho 8

Doce.

Digamos que esse foi o melhor final de semana do ano, com a melhor família e com a mais nova família. Digamos também que acabou, me agarro, agora, a uma doce lembrança e uma grande certeza, retorno.

Amei!

Correnteza de Tom Jobim.


A correnteza do rio vai levando aquela flor
O meu bem já está dormindo
zombando do meu amor
zombando do meu amor

Na barranceira do rio o ingá se debruçou
E a fruta que era madura
a correnteza levou
a correnteza levou
a correnteza levou, ah

E choveu uma semana e eu não vi o meu amor
O barro ficou marcado aonde a boiada passou
Depois da chuva passada céu azul se apresentou
Lá na beira da estrada vem vindo o meu amor
vem vindo o meu amor
vem vindo o meu amor

Ôu dandá, ôu dandá, ôu dandá, ôu dandá

E choveu uma semana e eu não vi o meu amor
O barro ficou marcado aonde a boiada passou

A correnteza do rio vai levando aquela flor
E eu adormeci sorrindo
Sonhando com nosso amor
Sonhando com nosso amor
Sonhando...

Ôu dandá...

quarta-feira, julho 4

Descontentamento

Pensa que tem algum propósito?
Está jogado na imundície de consciência
Achando que sabe, é demência
Sua mente suja e perversa!

Pouco que viu não é nada parecido
Com a dor que eu poderia ter-lhe oferecido
Poderia pedir clemência por horas
Chamar-te-ia ao ouvido, Querido!

Terás um contante sabor amargo
Na boca um gosto de fracasso e podridão
Tu és um porco safado, uma bichona velha.
Ponha-se no seu lugar.

quarta-feira, junho 27

Rock Around The Clock.


One, Two three o´clock, four o´clock rock
Five, six, seven o´clock, eight o´clock rock
Nine, ten, eleven o´clock , twelve o´clock rock
We´re gonna rock around the clock tonight

Put your glad rags on, join me , Hon
We´ll have some fun when the clock strikes one
We´re gonna rock around the clock tonight
We´re gonna rock, rock, rock, ´till broad daylight
Gonna rock, gonna rock around the clock tonight

When the clock strikes two, three and four
If the band slows down we´ll yell for more
We´re gonna rock around the clock tonight
We´re gonna rock, rock, roc, til broad daylight
Gonna rock, gonna rock aroun the clock tonight

When the chimes ring strikes five, six and seven
We´ll be right in seventh heaven
We´re gonna rock around the clock tonight
We´re gonna rock, rock, roc, til broad daylight
Gonna rock, gonna rock aroun the clock tonight

When it´s eight, nine, ten, eleven too
I´ll be goin´ strong and so will you
We´re gonna rock around the clock tonight
We´re gonna rock, rock, roc, til broad daylight
Gonna rock, gonna rock aroun the clock tonight

When the clock strikes twelve, we´ll cool off then
Start a rockin´ round the clock againg
We´re gonna rock around the clock tonight
We´re gonna rock, rock, roc, til broad daylight
Gonna rock, gonna rock aroun the clock tonight

domingo, junho 17

Certas noites.

Certas noites me fazem lembrar um passado remoto. Essas noites são agradáveis. Sabe aquela sensação constante de que não vai acabar (e eu bem queria que não acabasse), sinto. Uma euforia de ver estrelas no céu e não esperar o dia amanhacer. Não esperar absolutament nada. Mas sei que vai amanhecer, mas amanhã, amanhã poderia estar nublado, ou poderia simplesmente não estar. Diante disso e daquilo outro, eu queria parar no tempo, parar neste exato momento, do qual a noite me consome e eu, eu a devoro e me delicio com cada pequeno pedaço da escuridão. Sabe aquela sensação? Dejá Vu.

quinta-feira, junho 14

Passarinho.

Fico feliz de ser sua musa inspiradora. De ser posta em palavras, rodopiar sobre seus pensamentos. Quero que cante passarinho, você sabe como cantar, bem baixinho no meu ouvido. Mas não cante para ele. Acha que não sei do que se trata? Estou sempre a espreita, passarinho. Não cante para ele, que sequer é algo. E o que é, é nada. Cante para mim, baixinho no meu ouvido. Cante! Cante passarinho.

quarta-feira, junho 13

É noite. Embora o sol esteja brilhando lá fora. Repito que é noite. Aqui dentro, não dentro da casa, dentro dessa estrutura que me sustenta é noite, bem aqui dentro, bem no fundo está escuro, frio. É dia. Embora a noite esteja escurecendo minhas vistas. Repito que é dia. Lá fora é dia, e posso sentir isso por uma quentura que me invade. Já não sei mais o que é. Eu poderia passar horas sentada na mesma posição, olhando para o mesmo lugar, sem pensar em absoluamente nada, pensar em não pensar. Ah Elo! Você foi esquecida porque esqueceu. Brilha!

terça-feira, junho 12

Feliz dia dos namorados!

Uma data para celebrar a união amorosa entre casais. Nós, brasileiros, comemoramos no dia 12 de junho (Em homenagem a Santo Antônio, o famoso santo casamenteiro), já em outros países essa data é comemorada no dia 14 de fevereiro (Dia de São Vatentim, em homenagem a um santo católico). Dia dos namorados? Ou mais um dia lucrativo do ano? Pode até parecer despeito (e é)... Mas não vejo nada de feliz nesse dia.

quinta-feira, junho 7

São seus olhos.

Não, o dia realmente está lindo!

São seus olhos.

quinta-feira, maio 31

Luci e Mauro.

"Quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo." Clarice Lispector, in A Hora da estrela.

O que havia entre os dois era realmente um caso de amor, ele sempre entendia cada palavra que ela falava como se ela houvesse dito-as antes e nessa hora ele sentia que a conhecia de vidas passadas - dejá vu. Ele conseguia entender todos os defeitos de Luci e passaria por cima de todos estes pequenos detalhes, afinal, o que havia entre eles era realmente um caso de amor. Ela dava a ele bastante carinho, sempre quando ele chamava, e mesmo quando eles brigavam, ela ficava ali, bem perto dos pés de Mauro, algumas vezes ela até dormia e ficaria por horas daquele jeito, se ele quisesse.

Os problemas começavam na hora de ir dormir, no momento da separação, eles não mais dormiam juntos. Algumas vezes ele gemia tão estridentemente na sala que ela imaginaria um ferro sendo cravado fundo na garganta dele. Quando ele gemia, ela tinha medo. Tremia só de pensar que ele poderia estar ficando louco. Quando ela já não aguentava mais aquele som aterrorizante o pegava de jeito e dava uma bela surra. Minutos depois ele ficava calminho e dormia aos pés da cama. Uma surra para uma noite calma de sono. Mauro era adorável é louco, aquelhes olhos sempre pediam um pouco mais de carinho, por mais que fosse dado, submisso ele farejava em volta.

Um dia ela chegou em casa e encontrou tudo destruído, roupas rasgadas, objetos quebrados, sua caixa de lembranças de toda uma vida no chão, papéis espalhados pela sala. Aquilo era demais, ele estava destruindo a vida de Luci, destruindo aquela casa que ela mantinha com tanta organização, ela não poderia mais aguentar aquelas loucuras. Ele veio se aproximando com aqueles olhos, de quem acabou de cometer uma travessura e sabe que vai levar umas palmadas, com o rabinho entre as pernas, mas o olhar mudou e ele começou a babar e gemer. Mauro correu em direção a Luci, ela se encontrava acuada entre a parede e com medo, um medo que subiu pelo coluna vertebral. Antes que Mauro a tocasse, Luci correu para achar algo que lhe desse proteção. E Mauro se escondeu, como em uma brincadeira. Aquilo tinha passado dos limites! Ela foi até a sala, observando fotos espalhadas pelo corredor, toda aquela bagunça, e por um minuto repensou sua vida. Encontrou o animalzinho branco de focinho rosado, e apanhando um pedaço de pau bateu, bateu e bateu até que o bicho se tornasse um mingau de sangue e ossos partidos em pêlos claros onde boiavam um par de olhos abertos que não morriam.

É só um sonho?

Bem que me disse o teu nome
Para dizer aos teus olhos sem dono
Sinto que disse: "Me Ame!"
Foi um encontro perdido no sono?

sexta-feira, maio 18

É preciso fritar o arroz bastante antes de colocar a água fervendo. E não pode mexer jamais depois de a água ser posta. O alho deve fritar no óleo junto com o arroz. Coisas que eu sei e que não. Eu sei muitas coisas. Faxina, por exemplo. Se limpar uma casa de tal modo que não sobra um canto que não tenha sido tocado por minhas mãos. Depois vou sujando. Com muito gosto,. Deixo peças na sala e louças sujas na pia. Na mesma hora, mas um pouco bastante depois volto limpando. Assim me faço. Nos objetos que me acompanhan. Gosto de andar nas ruas e comprar coisas que vão se arrumando em torno de mim. Eu tenho muitas coisas, quero dizer, muitas camadas. Uma camada de livros, outra de sapatos. Tem a camada de plamtas. E toalhas de rosto. Tenho camada de cosméticos e adereços. Uma camada de nome e coisas que vejo. Tudo ordenado ao meu redor. Em forma de corpo. Um corpo que me sustenta. Quando o meu próprio me falta. Cadeiras são meus ossos. Sapatos são meus braços. Torneiras em meus poros. Paredes como roupa de inverno. (Quando toca música em minha casa sai do umbigo.). Descanso recostada nas paredes da casa que me guardam como um abraço. Me abraço quando me derramo na sala. E na cozinha. Em geral adormelo no quarto. Tudo em minha casa tem existência. Todas as coisas significo. Com os olhos. Ou com as mãos. Minha casa tem silêncios que "as vezes ouço. E faço poemas. Faço poemas dos silêncios que ouço. Ando com mania de lustra-móveis e ceras líquidas. Olho um por um nas prateleiras. Sinto a textura e o cheiro. Espalhando um pouco entre os dedos. Prefiro os de textura fina e que cheiram a jasmin (gosto mais do aroma floral mas a palavra jasmin é tão bonita). Levo todos para casa e vou espalhando. Primeiro o assoalho. Considero todos os cantos. Depois os móveis com as mãos vou tateando. Um por um. Em reverência. Ao que me sustenta quando me desamparo. As casas me sustentam em mim. Por isso as quero em detalhe. Bem cuidadas e cheia de espaços onde novas coisas se deitam. Costumo encontrar tesouros escondidos nas dobras das colchas. E nas louças sujas na pia. Tenho muitas janelas. Que é por onde o sol e a chuva me visitam. O vento aqui também é muito forte. Às vezes derruba tudo e eu gosto. Mas aqui também cabem pessoas. Tem sempre lugar para pessoas em mim.

Viviane Sodré, psicologa, psicanalista e doutora em filosofia. Fragmentos de Desato.

terça-feira, maio 8

Achava belo, a essa época, ouvir um poeta dizer que escrevia pela mesma razão que uma árvore dá frutos. Só bem mais tarde viera a descobrir ser um embuste aquela afetação: que o homem, por força, distinguia-se das árvores, e tinha de saber a razão de seus frutos, cabendo-lhe escolher os que haveria de dar, além de investigar a quem se destinavam, nem sempre oferecendo-os maduros, e sim podres, e até envenenados.

Osman Lins: Guerra sem testemunhas.

quarta-feira, maio 2

Folha Seca

A: Sabe, tenho um terrível amor à vida, embora, já tenha pensado em dar cabo nela.
B: Embora tenha pensado eu mesma em dar fim nela, tenho amor a alguma coisa.
A: Hoje pela manhã, escutei um pássaro cantar na minha janela. Adoro pássaros, principalmente aqueles de canto doce. Quando ouço um cantar, meu coração se enche de alegria.
B: Ouço os pássaros quando paro de escutar tantas outras coisas a minha volta, dificilmente os ouço, já que o barulho dos carros, o som alto do rádio, os batuques os barulhos um prego um martelo um barulho infernal, para. Minha vida, outra casa, porque eles não me amam, quando é que tudo isso um dia vai poder talvez parar, como tudo começou, como, como uma comida cada dia mais sem gosto, um sabor amargo de viver, esse barulho infernal que não acaba nunca, eu tenho vontade de dar um murro na parede, de subir naquele morro e me jogar lá de cima.
A: Tenho ganhado tantas flores pelos caminhos que percorro. Flores coloridas, de todos os tipos e cheiros. A última tinha um cheiro doce levemente aveludado com um fundo vanilhado, ela era branca. Penso nas flores e vejo essa terra avermelhada, essa terra que tudo brota, de onde nasci e para onde voltarei um dia. Que dia lindo. Já viu como o céu está azul?
B: Os caminhos que percorri me presentearam com lindas rosas vermelhas, cheias de espinhos, com elas histórias com um fim, digamos que, trágico. Sempre ganhei rosas. O que vejo, agora, é lama a minha volta, e está muito escuro aqui. E não há nessa história nenhuma borboleta branca voando a lama na escuridão. Já reparou nesse céu? Dias de sol são irritantes. Tenho me sentido bem em dias nublados, dias cinzentos, como meus olhos.
A: Sempre falaram que tenho um olhar doce, e mesmo nos momentos de raiva permaneço com uma certa doçura neles. Lembra quando quase nos separamos? Quem olhasse não diria que estávamos com problemas tão sérios. E mesmo assim eu permanecia olhando docemente para as pessoas.
B: Mas sempre me disseram que meu olhar é indecifrável, uma grande incógnita, embora, eles olhem profundamente procurando te decifrar. Você sempre fingiu muito bem, soube muito bem pintar os olhos de sorrir ou chorar, e a culpa é sua.
A: Vivo por nós, respiro você. E a culpa é minha? Você que vive na escuridão.
B: Vivo na escuridão para que você viva na luz. A culpa é minha? Tenho tido péssimas noites de sono, estou dormindo muito pouco, e quando durmo tenho pesadelos. Fico o dia inteiro zanzando de lá para cá sem saber direito o que fazer. Não paro de pensar nisso tudo a minha volta e tenho me preocupado mais contigo do que comigo, eu já não importo mais tem muito tempo.
A: Porque fazer isso? Eu ainda sou importante de alguma forma? Quero te ter comigo, ou não me tenho.
B: Tenho as pétalas vermelhas secas guardadas, para que um dia, lá de cima daquele morro, você as jogue no momento exato em que eu estiver pulando. O dia vai estar ensolarado, o céu vai estar diferente e não vai ser primavera nem verão. Eu vou abrir os braços sentindo o vento bater no meu cabelo, respirarei fundo e escutarei os pássaros cantar. Nesse exato momento eles cantam. Vou inclinar meu corpo para frente, e não mais pensar em nada. Sentirei cheiro de flores, baunilha, e cairei, devagar, o vento batendo no meu corpo, cairei sobre um manto de folhas secas.
A: Dorme vai. Amanhã o dia vai estar bonito, nublado, esses dias cinzentos que você tanto gosta. Você vai sair, e eu vou ficar. Esperando um dia ensolarado. Há algo que nos espera, amanhã, ou depois.

sábado, abril 14

Ela andava meio atordoada. Seus olhos estavam intumescidos, mas ela já havia acordado a horas. Também não era sopor, talvez algo semelhante a um entorpecimento. Andava meio atordoada, pasmada, estonteada, abalada. E andava, sem pressentir nem sentir. Deitou, levantou-se e sentou-se a beira da cama. Seu coração palpitava descompassado, era possível sentir sua veia do pescoço latejando. Arquejava. Sentia uma forte dor na garganta, como se algo estivesse abafado, um choro incontido, um clamor interno. Visto de fora ela parecia uma pintura desbotada, mantendo apenas uma coloração rosada nas maçãs do rosto. Visto de dentro havia uma rachadura na parede branca do quarto, precisa de uma cor nova, quente, talvez verniz composto de resina e sangue-de-drago dissolvidos em álcool, um rubro escarlate. Ela observava minuciosamente a rachadura, por longos minutos, até dar a impressão de não mais possuir vida no seu corpo miúdo. Fazia-se nula. O seu olhar, paralisado, estudava a sublime fenda, seu início e seu fim. De repente ela pegou um prego e começou a martelar dentro da fenda. A rachadura foi se espalhando rapidamente pela parede, a casa começou a tremer e o teto a descer, em pedaços. Suas vistas embaçaram, piscando os olhos ela voltou a si, e pode perceber a grandeza da destruição. Correu até o banheiro, arrancou a roupa como se quisesse se desprender de algo, se ver livre. Ligou o chuveiro no máximo, água gelada escorrendo pelo corpo, encostou suas mãos na parede, sua cabeça entre elas, foi descendo devagar até o chão. Uma explosão dentro do seu corpo, asas de borboletas batendo no estômago. Chorou. Até não ter mais lágrimas, até soluçar, se perder e se achar. Começou a enxergar as coisas de um modo diferente. Com bastante nitidez percebia toda uma estrutura apoiada sobre um pequeno ponto fraco. Há sempre uma fenda que pode ser atingida.

Notas do Subterrâneo


"...Acontece que tenho um terrível amor-próprio. Sou tão desconfiado e suscetível quanto um corcunda ou um anão, mas, realmente, há ocasiões em que, se me derem uma bofetada, isso talvez me rejubile. Falo a sério; eu provavelmente descobriria aí um tipo especial de prazer - evidentemente, o prazer do desespero, pois é o desespero que encerra os mais intensos prazeres, particularmente quando se tem uma aguda consciência da própria situação. Quando somos esbofeteados, a consciência de termos sido feitos em pedaços positivamente nos avassala. O principal é que, pense-se o que se quiser, eu sempre aparecerei como o maior culpado, e o que é mais, culpado sem culpa, ou, ao contrário, segundo as leis da natureza. Em primeiro lugar, porque sou mais inteligente do que todos que me cercam. (Sempre me considerei mais inteligente do que os que me cercam, e às vezes, acreditais, até tive vergonha disso. De qualquer forma, durante toda a vida olhei as pessoas assim de lado, nunca fui capaz de encará-las.) Culpado, finalmente, porque mesmo que eu fosse capaz da magnanimidade, a consciência da inutilidade dessa virtude só serveria para me fazer sofrer mais ainda. De nada me adiantaria certamente a minha magnanimidade: nem sequer me valeria para perdoar, pois o meu ofensor talvez me golpeasse segundo as leis da natureza, e as leis da natureza são inexoráveis; nem, por outro lado, eu poderia esquecer, porque, ainda de acordo com as leis da natureza, tratar-se-ia de uma ofensa. Enfim, mesmo que eu desistisse de ser magnânimo e desejasse, ao contrário, me vingar do meu ofenssor, não poderia vingar-me de nada, nem em ninguém, pois não era capaz de me decidir a fazer coisa alguma, mesmo se tivesse condições de fazê-lo. E porque que não me podia decidir?..."

Fiodor Mikhailovitch Dostoievski - Notas Do Subeterrâneo

sábado, março 3

lune

"Você que pinta os olhos de sorri. Você não tem razão pra esperar. O teu silêncio é uma desordem que eu procuro não contrariar. Vai te permitir exagerar todas as palavras de calar. Um dia eu te trago a lua. Pra brincar contigo e ser só tua."

eu escutei isso em algum lugar, só não sei onde.

terça-feira, fevereiro 13

Engraçado como as coisas mudam. Você pode esquecê-las substituindo por fatos novos mas elas sempre estarão ali, basta resgatá-las na memória. Digo as MUDAS coisas.

A janela não foi bem fechada e pelo espaço ainda aberto entrava um vento gelado, algumas vezes dava até para escutar o assovio fino do vento. O céu estava cheio de nuvens cinzas e brancas, não havia sol. Ela estava feliz, embora o céu e o frio deixassem um ar melancólico no dia.

domingo, janeiro 14

O dia em que o sol não nasceu.

E você tenta interromper o pensar para não tentar lembrar daquilo que você não pode esquecer não conseguindo esquecer lembrando mais do que se pode pensar. Pensa. Tantas palavras doces ecoando bem alto. E você tenta silenciar essas palavras por medo de escutá-las tão estridentementes de tal forma que te possam calar. Cala e te fala que não há como calar. E você fica confusa com medo de não fazer saber e agir. Chora. Um choro incompreendido de dor e amor. Chora. Lágrimas de medo. E você pensa repensa e não pensa e pensa em não pensar e faz o que o coração manda. Apenas me diga palavras bonitas! :)